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sábado, 14 de julho de 2007
A Normalista - Adolfo Caminha
Angustia - Graciliano Ramos
Angústia é um relato aflito das frustrações de Luís da Silva, personagem
central. Este é um funcionário público que trabalha na diretoria da fazenda
escrevendo artigos por encomenda. Jornalista e com pretensões literária. Faz
constantes alusões a sua infância - relata várias histórias desse tempo por todo
o decorrer do livro. Seu avô, o velho Trajano, chegou a ter poder e escravos.
Seu pai, Camilo Pereira da Silva, pegou os negócios na fazenda quando iam mal.
Aos catorze anos perde o pai. "Desejava em vão sentir a morte de meu pai. Tudo
aquilo era desagradável. [...] Que iria fazer por aí à toa, miúdo, tão miúdo que
ninguém me via?". Vai para a cidade, onde passou fome até se estabelecer com
emprego. Sempre foi muito isolado. "Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar
papagaio. Sempre brinquei só." Passa horas no café, conversando com Moisés,
judeu com ideias comunistas, mas não presta atenção. Pensa nas suas dívidas e
prestações. Vive agitado, antigas imagens o perseguem, não consegue trabalhar,
em tudo vê Julião Tavares e Marina. Esse é seu estado atual. A cerca de um ano,
quando os negócios iam tranqüilos e equilibrados, avista pela primeira vez uma
nova vizinha: Marina. Moça nova e bonita. Fica a observá-la até travar uma
amizade que evolui para namoro. Se encontravam no quintal da casa. Marina
gostava de luxo, admirava D. Mercedes: "uma espanhola madura da vizinhança,
amigada em segredo com uma personagem oficial que lhe entra em casa alta noite."
D. Adélia, mãe de Marina, pede a Luís que arranjasse um emprego para a filha.
Marina não se interessa por tal.
Lia romances fúteis e falava frivolidades. Como ela não permitia maiores
intimidades e Luís da Silva gostava muito dela; ficaram noivos. Em uma festa no
Instituto Histórico, Luís da Silva conhece a figura de Julião Tavares. Sujeito
gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor. Católico e
reacionário. Defensor de um governo forte. E Julião Tavares "dias depois fez-me
uma visita. Em seguida familiarizou-se. Era Luís para aqui, Luís para alí,
elogios na tábua da venta, só com o fim de receber outros. Não tenho jeito para
isso. Duas, três horas de chateação, que me deixavam enervado, besta, roenda as
unhas." Luís da Silva gasta muito dinheiro com os arranjos para o casamento.
Compra roupas que Marina recebe com desdém. Comprou um anel que ela nem chegou a
usar. Até que "ao chegar à Rua do Macena recebi um choque tremendo. Foi a
decepção maior que já experimentei. À janela da minha casa, caído para fora,
vermelho, papudo, Julião Tavares pregava os olhos em Marina, que, da casa
vizinha, se derretia para ele, tão embebida que não percebeu a minha chegada."
Seguem-se discussões até que Luís da Silva para de falar com Marina e esta
começa a namorar com Julião Tavares. "Se eu não tivesse cataratas no
entendimento, teria percebido logo que ela estava com a cabeça virada. Virada
para um sujeito que podia pagar-lhe camisas de seda, meias de seda." Ele
espreitava os dois e começava a ter alucinações e devaneios. Apesar de tudo,
Luís da Silva ainda nutria esperança que Marina fosse sua: "Se Marina
voltasse... Porque não? Se voltasse esquecida inteiramente de Julião Tavares,
seríamos felizes." Mas ela não volte e ao espiar os sons de Marina ao banheiro
(sendo o seu banheiro colado com o da casa vizinha) descobre que ela se
encontrava grávida. Marina procura os serviços de d. Albertina, parteira
diplomada, para abortar a criança. Luís a havia seguido e quando ela sai
aborda-a e vocifera palavrões. Marina não tem coragem de reagir. O romance
prossegue em um ritmo rápido, com a raiva que Luís da Silva tinha por Julião
Tavares crescendo exponencialmente. Ele descobre que Julião Tavares tinha feito
nova conquista e o segue até Bebedouro, local da casa desta nova "vítima".
Quando Tavares voltava para casa, após várias considerações e pensamentos
difusos, Luís da Silva acaba estrangulando-o com uma corda. Atordoado e com
medo, Luís da Silva volta para casa e é tomado por uma forte febre que produz
alucinações, imagens e lembranças que o perturbam. A narrativa do livro tem
início quando ele desperta do torpor. Ele agora é um homem destruído e sujo.
Angústia é um livro forte, e com uma narrativa psicológica densa. É no entender
de Sergius Gonzaga "um dos romances mais amargos da literatura brasileira
Aniversário - Álvaro de Campos
A não distribuição uniforme dos versos e a despreocupação com a distribuição
rítmica dão ao poema um tom confessional, aproximando-o de um texto em prosa. As
lembranças relatadas no texto referem-se a uma data específica lembrada pelo
eu-poético - o dia do aniversário. Esta data é a propulsora para outras
recordações da infância e outras angútias do eu-poético, servindo também como
ponto de referencia temporal quando o eu-poético intercala-se e contrapõe-se
entre o passado e o presente. A época da infância no poema é marcada pela
inocência, pois a criança ainda não tem noção do que se passa à sua volta: "Eu
tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma". A passagem da criança para
o adulto é marcada por uma perda, pois ele percebe que a vida não tem mais
sentido. O poeta hoje "é terem vendido a casa", ou seja, é um vazio, que perdeu,
inclusive, o bem mais precioso, a sensação de totalidade, de alegria, de
aconchego dado pela vida em família na infância longínqua. Assim, a festa de
aniversário toma o aspecto simbólico de um ritual familiar e religioso, dentro
do qual a criança se torna o centro de um mundo que a acolhe e protege
carinhosamente. "As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha
causa", denota, com esta adjetivação uma característica comum a toda infância: o
egocentrismo. No presente, não há mais aniversários nem comemorações: resta ao
poeta durar, porque o pensamento amargurado, critico e pessimista da vida o
impede de ter a inocência de outrora.
O tom nostálgico e angustiado do poema dá a sensação de que o eu-poético vive
uma introspecção conflitiva relembrando um passado supostamente mais feliz que o
presente. O trecho "serei velho quando o for. Nada mais." parece querer dar fim
a este conflito interno. "Raiva de não ter trazido o passado roubado na
algibeira !..." conclui o tom confessional do poema e enfatiza uma espécie de
conformismo ríspido e amargurado com o presente melancólico e sem perspectiva em
relação a vida. "O tempo em que festejavam o dia dos meus anos !" é repetida
muitas vezes no texto dando ênfase a importância da data na lembrança do
eu-poético, servindo também para marcar a justa contraposição entre passado e
presente, respectivamente infância e fase adulta. O ultimo verso do poema sugere
uma acomodação amargurada em relação ao passado. Em "Eu era feliz e ninguém
estava morto" pode-se notar novamente o conformismo com o presente que pode não
ser o idealizado, mas que está alicerçado em um passado inocente, de aspecto
virginal, contrapondo-se com a atual falta de perspectivas e a desmotivação para
a vida, onde ele diz: "Hoje já não faço anos. Duro." O eu-poético oraliza um tom
de amargura versificado de forma clara, coesa e coerente, marcando com precisão
verbal os estados temporais e emocionais a que se refere no poema. Por se
parecer com uma "auto-confissão poética", pode-se afirmar que o eu-poético
insere no texto características comuns às pessoas que estão prestes a deixar o
mundo material, ou que neste não sentem mais vontade de estar por muito mais
tempo. A reflexão conflitiva e melancólica sobre o passado, a amargura em
relação ao presente e sensação de que o tempo passou e algo que deveria ser
resgatado perdeu-se em um passado longínquo, são características comuns em
pessoas que encontram-se neste estágio da existência humana.
Anão de Jardim - Lygia Fagundes Telles
Em "Anão de Jardim", conto de Lygia Fagundes Telles, o fantástico é fruto
da união da humanização da coisa (estátua) e das próprias características do
ser que ela representa (anão). O conto é narrado em primeira pessoa. Assim,
a autora não apenas nomeia o inominável, como também confere-lhe sua própria
linguagem. A história é banal. Kobold, um anão de pedra aguarda a demolição
da casa em cujo jardim conheceu a plenitude de sua existência inanimada.
Abandonado no caramanchão junto a um violoncelo quebrado, observa o trabalho
dos operários enquanto relembra os fatos de sua existência. O destino de
Kobold é o mesmo da casa, também está sujeito ao abandono e à destruição.
Porém, o destino de ambos é idêntico ao do proprietário da residência. O
Professor foi envenenado aos poucos com arsênico pela esposa. Hortênsia o
traia e pretendia desfrutar a herança com o amante. Após a morte do
Professor, ela vendeu a casa e desapareceu. Todos foram embora e o anão
ficou "como o homem que é prisioneiro de si mesmo no seu invólucro de carne,
a diferença é que o homem pode se movimentar". O professor era o único que
compreendia o anão. Foi ele que comprou-o num antiquário, instalou-o no
caramanchão e deu-lhe o nome de Kobold. Conversava muito com a estátua, mas
era tão ingênuo que, às vezes, despertava a ira do anão. O conto desnuda os
problemas resultantes da interação entre as pessoas mediada pelas coisas.
Lygia sugere que a humanização dos objetos equivale à desumanização das
pessoas.
O Professor dá atenção a Kobold, Hortênsia ao patrimônio do esposo. Mas, o
comportamento de ambos é semelhante. Afinal, se Hortênsia somente vê o
Professor como uma coisa, cujo desaparecimento franqueia-lhe o acesso à
outras (a herança), ele mesmo atribui à esposa um valor menor que o de um
objeto inanimado. Afinal, o Professor entrega-se às conversas com o anão de
jardim, mantendo a esposa na mais abjeta solidão. As coisas que mediam as
relações entre ambos não são nem poderiam ser culpadas pela distância
existente entre eles. É sintomático que só Kobold tenha se dado ao trabalho
de narrar a história do casal. Nenhum dos dois estava realmente interessado
naquele casamento. Mesmo tomando a defesa do Professor, é impossível ao anão
esconder o quanto seu amigo era cruel. Cruel ao ponto de dar mais atenção a
uma estátua que a esposa. Em "Anão de Jardim" é patente a preocupação da
autora em desmascarar o cinismo existente nas relações interpessoais. Para
Lygia parece que todo o tecido social está doente, porque sua célula mater
(a família) não funciona como deveria. Distanciamento, impessoalidade seriam
as causas da infelicidade e, em última análise, da violência. Violência que
não é só física (como o envenenamento de Professor) mas também e
principalmente psicológica (como o desprezo devotado a Hortênsia). Às
coisas, impassíveis, inanimadas e, portanto, irresponsáveis pelo desconcerto
do mundo, só restaria observar e contar a história de seus donos. Fazendo
isso, mesmo que tomem partido, e justamente porque o tomam, denunciam à que
ponto chegaram os seres humanos num tempo em que suas relações já não são
diretas, mas mediadas pelos objetos. Enfim, só mesmo a eloqüência da pedra
para aquecer nossos corações que se tornam mais surdos e mudos a cada dia
que passa. É aqui que o trabalho com a linguagem assume o primeiro plano.
Lygia não apenas nomeia o inominável, mas confere vida e linguagem ao seu
personagem fantástico. Mas não será isso outro índice da impossibilidade de
comunicação entre os seres humanos? É preciso que Kobold, um ser inanimado,
narre a história em primeira pessoa para percebermos o quanto nossa própria
linguagem tornou-se uma prisão. A história de ambos é tão banal que não
despertaria qualquer atenção se fosse contada por um narrador mimético, cuja
linguagem se aproximasse da empregada pelas personagens. Afinal, o Professor
fala com a pedra e Hortênsia engana-o a propósito de envenená-lo. O discurso
de um é excessivamente autocentrado o da outra mentiroso. Rompendo com a
lógica usual, "Anão de Jardim" alerta-nos o quanto esta lógica é apenas
aparente. Absurda não é a literatura, mas o mundo a que ela destina-se. No
fundo, a realidade tornou-se tão fantástica que a arte já não pode nem
consegue mais imitá-la. É preciso recriá-la como linguagem e representação
para que possamos tomar contato com ela tal como ela é. Enfim, só o
inusitado confere à obra alguma verosimilhança em relação ao meio em que ela
foi concebida e para a qual retorna. Intencionalmente ou não, em seu conto
Lygia revela sob as camadas textuais uma preocupação essencialmente
estética. Mais que isso, sugere um novo conceito de mimesis. A questão então
é saber até que ponto poderemos suportar-nos diante dele. "Anão de Jardim"
não é um enigma. É a própria esfinge, pronta para devorar-nos se não formos
capazes de responder às suas indagações. Sob a roupagem de felino alado com
cabeça humana do conto está o próprio leitor. Defrontado com o espelho, será
ele capaz de responder à pergunta "o que sou eu?" É impossível deixar de
notar o sutil parentesco entre o conto analisado e "Os objetos" da mesma
autora. Neste, a tensão é gerada pela maneira distinta como as personagens
encaram as coisas. Lorena acredita que elas tem valor em si mesmas e Miguel
que o valor delas reside na sua utilidade para o homem. Há uma vaga
possibilidade de que Kobold seja o mesmo anão de jardim que Lorena e Miguel
viram no antiquário onde estiveram. Isto aumenta as relações entre os dois
textos. A diferença entre ambos não reside apenas no foco narrativo, de
terceira pessoa em "Os objetos" e de primeira em "Anão de Jardim", mas
principalmente no caráter mimético e fantástico dos narradores. Ambos contos
tratam do mesmo tema, porém, de ângulos diametralmente opostos. No último a
impessoalidade é levada a um extremo inexistente no primeiro. O que teria
mudado? O mundo, a escritora ou ambos? Estas são questões difíceis de serem
respondidas. Todavia, o parentesco entre as obras denota mais que uma
constante preocupação com o mesmo tema. A mudança na abordagem, o
aprofundamento do questionamento acerca da intermediação das relações
humanas pelos objetos mostram o quanto Lygia tem feito e ainda pode fazer
pela literatura. Particularmente pelo gênero fantástico em que vazou o
conto, sem dúvida alguma um dos melhores contos já escritos em língua de
anão de jardim.
Ana Terra - Érico Veríssimo
De um instante para outro tornou-se invisível aos olhos do Pai, transfigurando-se numa entidade pecadora. Simbolicamente expulsa de sua casa, procurou fazer-se pequena, para que sua pequenez diminuísse a dor da culpa; tratava-se, porém, de uma culpa mais aceita do que entendida. Logo aconteceu o nascimento do filho de Ana Terra e, Dona Henriqueta assistiu-a, cortando o cordão umbilical do menino Pedro. Mesmo assim, os pais e irmãos não tomaram conhecimento do novo ser que habitaria o rancho. Contra toda as possibilidades, Pedrinho cresceu, e a vida seguiu seu rumo. Os irmãos casaram-se, e, para Ana, cada dia era a repetição do dia anterior. Depois disso, sua mãe morreu, de nó nas tripas, mas esta morte não abalou muito à Ana. Então vieram vários castelhanos, assassinando, incendiando, violando. Ana mandou a esposa de seu irmão e as duas crianças irem se esconder no mato, e fingindo ser a única mulher da casa, imola-se voluntariamente à sanha dos bandidos. Foi estuprada várias vezes, e ao acordar de seu desfalecimento, encontrou um quadro de horrores: o pai, o irmão Antônio, os escravos, todos estavam mortos no meio da casa já destruída. Ana entendia naquele momento que estava liberta de sua mancha original, e pela forma mais bárbara e purificadora. Nada lhe fora poupado em sofrimento, e pelo sofrimento reconciliava-se com a vida. Numa exaltação próxima a uma feroz alegria, aceitou o convite de um forasteiro para ir formar o núcleo inicial de uma nova vida, e uma longa viagem a levou para um planalto. Lá ela construiu uma casa, morando com seu filho, que logo teve que ir para uma guerra contra os castelhanos. Voltando da guerra vivo, casou-se com uma moça, teve um filho e logo teve que voltar para a guerra, com o compromisso de voltar vivo, pois agora ele tinha uma mulher e um filho para cuidar.