A não distribuição uniforme dos versos e a despreocupação com a distribuição
rítmica dão ao poema um tom confessional, aproximando-o de um texto em prosa. As
lembranças relatadas no texto referem-se a uma data específica lembrada pelo
eu-poético - o dia do aniversário. Esta data é a propulsora para outras
recordações da infância e outras angútias do eu-poético, servindo também como
ponto de referencia temporal quando o eu-poético intercala-se e contrapõe-se
entre o passado e o presente. A época da infância no poema é marcada pela
inocência, pois a criança ainda não tem noção do que se passa à sua volta: "Eu
tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma". A passagem da criança para
o adulto é marcada por uma perda, pois ele percebe que a vida não tem mais
sentido. O poeta hoje "é terem vendido a casa", ou seja, é um vazio, que perdeu,
inclusive, o bem mais precioso, a sensação de totalidade, de alegria, de
aconchego dado pela vida em família na infância longínqua. Assim, a festa de
aniversário toma o aspecto simbólico de um ritual familiar e religioso, dentro
do qual a criança se torna o centro de um mundo que a acolhe e protege
carinhosamente. "As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha
causa", denota, com esta adjetivação uma característica comum a toda infância: o
egocentrismo. No presente, não há mais aniversários nem comemorações: resta ao
poeta durar, porque o pensamento amargurado, critico e pessimista da vida o
impede de ter a inocência de outrora.
O tom nostálgico e angustiado do poema dá a sensação de que o eu-poético vive
uma introspecção conflitiva relembrando um passado supostamente mais feliz que o
presente. O trecho "serei velho quando o for. Nada mais." parece querer dar fim
a este conflito interno. "Raiva de não ter trazido o passado roubado na
algibeira !..." conclui o tom confessional do poema e enfatiza uma espécie de
conformismo ríspido e amargurado com o presente melancólico e sem perspectiva em
relação a vida. "O tempo em que festejavam o dia dos meus anos !" é repetida
muitas vezes no texto dando ênfase a importância da data na lembrança do
eu-poético, servindo também para marcar a justa contraposição entre passado e
presente, respectivamente infância e fase adulta. O ultimo verso do poema sugere
uma acomodação amargurada em relação ao passado. Em "Eu era feliz e ninguém
estava morto" pode-se notar novamente o conformismo com o presente que pode não
ser o idealizado, mas que está alicerçado em um passado inocente, de aspecto
virginal, contrapondo-se com a atual falta de perspectivas e a desmotivação para
a vida, onde ele diz: "Hoje já não faço anos. Duro." O eu-poético oraliza um tom
de amargura versificado de forma clara, coesa e coerente, marcando com precisão
verbal os estados temporais e emocionais a que se refere no poema. Por se
parecer com uma "auto-confissão poética", pode-se afirmar que o eu-poético
insere no texto características comuns às pessoas que estão prestes a deixar o
mundo material, ou que neste não sentem mais vontade de estar por muito mais
tempo. A reflexão conflitiva e melancólica sobre o passado, a amargura em
relação ao presente e sensação de que o tempo passou e algo que deveria ser
resgatado perdeu-se em um passado longínquo, são características comuns em
pessoas que encontram-se neste estágio da existência humana.
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sábado, 14 de julho de 2007
Aniversário - Álvaro de Campos
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